As manifestações da Folia de Reis no município de Planura fazem parte de uma tradição de festas da Natividade das Divindades, que remonta à Antiguidade Clássica. Essas festas designadas “pagãs” pelo cristianismo foram por estes apropriadas e ressignificadas mesclando seus conteúdos com elementos cristãos.

 

A festa da natividade no âmbito do cristianismo foi pouco-a-pouco sendo acrescidas de elementos diversos, como as figuras de Gaspar, Melchior (Melquior) e Baltazar (Baltasar). Os Três Reis Magos, que segundo a tradição vieram do Oriente à Judéia para saudar Jesus Cristo. Os presentes que os Magos trouxeram para o Menino tem um rico significado simbólico; o ouro, incenso e mirra, que representariam as três dimensões do Messias: sua realeza (ouro), sua divindade (incenso) e humanidade, dado que o óleo de mirra era, então, utilizado para embalsamar os corpos, simbolizando o futuro sofrimento de Cristo. Uma vertente da tradição cultiva a ideia de que os reis magos se converteram e foram batizados por São Tomé, depois pregando o Evangelho em seus países de origem. Os reis magos foram canonizados no século VIII, sendo, por isso, referidos como Santos Reis.

 

O fundamento bíblico das folias está nos evangelhos de Lucas (capítulo 2, dos versículos de 1 a 20) e Mateus (capítulo 2, versículos de 1 a 12). Há, porém, uma diferença importante entre as duas narrativas. Lucas se preocupa em descrever a viagem de José e Maria a Belém e em justificar por que fizeram aquela viagem – houve um decreto do imperador romano, ordenando um recenseamento e todos deviam se alistar na sua própria cidade. Chegando a Belém, deu-se a hora do Nascimento; a cidade estava cheia e tiveram que se abrigar nos arredores. Não se fala de Reis Magos. Toda a cena é composta pelo anjo que avisa os pastores, José, Maria e o Recém-Nascido. Não acontece a visita de reis vindos de longe, mas, em contrapartida, quando os pastores chegaram à manjedoura, uma multidão, um exército de anjos desce do céu, dando Glória a Deus. Mateus já vai direto ao assunto: “Tendo Jesus nascido em Belém...”. E é aí que se encontra a origem mais remota da folia de reis. Já no primeiro versículo da narrativa, o evangelista diz: “eis que vieram magos do Oriente”. Mas o texto bíblico não diz quantos eram, nem seus nomes.

 

 

No desenvolvimento da devoção ao longo dos séculos, teólogos, pintores, hagiógrafos e os chamados padres da Igreja foram definindo o que não foi dito no texto sagrado. Houve muitas indagações sobre quantos eram. Poderiam ser os quatro sugeridos contemporaneamente pela literatura e pelo cinema. Várias versões orientais diziam, entretanto, que eram doze.  Mas, devido aos presentes assinalados no versículo 11 – ouro, incenso e mirra –, todas as tradições ocidentais se fixaram em três reis, com os nomes de Gaspar, Baltazar e Belchior. (PESSOA, 2007, p. 75).

 

A devoção aos Reis Magos desenvolveu-se por toda a Europa durante a Idade Média. Segundo Jadir Pessoa (2007), isso se deve à chegada dos restos mortais destes três entes míticos à catedral de Colônia (Alemanha), em 1164. Eles para lá teriam sido trasladados de Milão (Itália) como despojos de guerra, numa conquista de Frederico Barbarrocha. E para Milão teriam sido levados no século IV ou V como presente especial da Imperatriz Helena, de Constantinopla (PESSOA, 2007, p. 63).

Enquanto fizeram todo esse percurso, foram surgindo em diversos países pinturas em catacumbas, quadros, retábulos, esculturas, altos-relevos em sarcófagos, apresentando a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. E, a partir de Colônia, espalharam-se por toda a Europa como parte das grandes peregrinações, a exemplo do que já acontecia em Santiago de Compostela, Terra Santa e Roma. Como heranças diretas dessas peregrinações, surgiram então os cânticos populares, muito importantes em toda a Europa medieval, chamados Noëls na França, Villancicos na Espanha e Folias em Portugal. Provavelmente, esses cantos, acrescidos do teatro de Gil Vicente, depois de José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, constituem as matrizes mais diretas das diversas devoções existentes no Brasil, como reisados, bois-de-janeiro, bois-de-reis, pastorinhas e especialmente, no chamado “corredor das bandeiras” (SP, MG, GO, MS), as folias de reis.

 

 

Seguem imagens das festas de Folia de Reis de Planura/MG